QUAL PARTE DO SEU CÉREBRO QUER VIVER DE TRADING?

DANIELLE GURGEL

DANIELLE GURGEL

30-08-2019

Se você está lendo este texto é porque já vive de trading ou porque algum dia já passou pela sua cabeça a ideia de viver fazendo isso. Se isto já é realidade ou um projeto, você certamente já se pegou elencando um monte de prós e contras, já fez análises e considerações sobre risco, leu biografias e falou com amigos que trabalham fazendo isso. Mas você analisou o banco de dados mais importante de todos? Aquele que está em cima do seu pescoço. Incluindo aí o que está meio criptografado também?

Quando falo sobre dados criptografados incluo na lista ideias, pensamentos e sentimentos que normalmente não damos atenção, seja porque não os achamos importantes, ou porque não queremos acreditar que às vezes pensamos coisas meio estranhas, coisas que nem parecem que fomos nós quem pensamos. Ou por qualquer outro motivo!

O fato é que a maior parte do nosso cérebro processa tudo em paralelo e em rede, são muitas partes processando e decidindo coisas, e estas várias redes neurais tomam decisões sem que tenhamos a menor ideia do que está sendo feito.

Às vezes queremos conscientemente algo, mas uma determinada rede pode, em alguns casos, pensar literalmente ao contrário ao nosso pensar consciente.

As redes do cérebro funcionam por associações, elas literalmente associam tudo a tudo, é o “esporte” do cérebro. O cérebro faz associações de pensamentos, emoções, imagens, eventos e evidências, movimentos, enfim qualquer coisa. A questão é que redes que estão fora do nosso nível de percepção consciente, definem boa parte do nosso comportamento no dia a dia.

Vamos fazer um exercício? Vem comigo…

Relaxe um pouco, respire e use a sua imaginação. Pense em alguém perguntando para você sobre a sua profissão, e depois se imagine respondendo algo do tipo: “sou especulador financeiro, trabalho em minha casa operando ações, moedas, mercadorias, ou qualquer outro ativo”. Você também pode fazer este mesmo exercício para outros conceitos como risco, prejuízo, imprevisibilidade. A mente é sua, vá em frente!

Agora reexamine sua mente meticulosamente, observe se existe algum indício de estranheza, alguma emoçãozinha diferente, uma imagem ou uma lembrança que desperta uma emoção, quando pensa isso nestes termos ou em qualquer outro termo que signifique a mesma coisa. Preste atenção no primeiro pensamento ou sentimento que surgir em sua cabeça. Não edite, você está sozinho ou sozinha, ninguém está ouvindo o que está pensando.

Continue relaxado. Se imagine agora dizendo para várias pessoas diferentes, pertencentes a diferentes contextos da sua vida (tipo seu pai, sua namorada, seu ex chefe, seu filho etc.), que a sua profissão é especulação financeira e observe o que sente e pensa.

Agora relembre o que já ouviu, sentiu, pensou ou viu, podem ser coisas do tipo…

“Quero viver de trading, mas minha família vê isso como jogo”, “minha mulher ou meu marido acha que isso não é profissão”, “às vezes eu mesmo sinto que devia estar produzindo ‘algo útil’ para a sociedade”, “não consigo explicar para meu filho o que eu faço”, “cresci ouvindo o meu pai dizer que para ganhar dinheiro temos que trabalhar duro”, “dinheiro que vem fácil vai fácil”, me sinto culpado por ganhar dinheiro “fácil” etc. São tantos os exemplos que podem existir a respeito da atividade de viver de trading, que sequer seria possível pensar em escrever todos aqui. O importante é que isso é só um exemplo para você pegar a ideia e ser capaz de identificar coisas similares dentro da sua cabeça.

Agora suponhamos que identificou pensamentos, emoções, imagens, ou qualquer coisa estranha ao seu pensamento principal: que é operar e ser bem sucedido ou bem sucedida.

Observe se uma outra parte do seu cérebro entrou ação contra argumentando. Essa parte costuma falar muito bem, e sempre temos a impressão de que ela está no controle total da situação.

Abaixo vou dar um exemplo hipotético de como essa parte gosta de falar.

“— Olha, veja bem, isso é só um resquício de pensamento estranho, é apenas um ranço. Nós, brasileiros, podemos ter pensamentos enviesados por causa de preconceitos típicos de uma economia sem cultura de investimentos em renda variável, além do que vivemos numa sociedade com um viés de desconfiança coletiva permanente. Mas isso não tem nada a ver com acreditar que eu posso me dedicar full time ao trading e ser um vencedor. Um trader é especializado em tirar proveito de qualquer cenário, e isso é o que importa.”

Novamente isso é só um exemplo para você captar a ideia. Conseguiu captar uma parte falante e eloquente e outra sorrateira e que quase murmura?

Enfim, a verdade é que, se essa parte que quase sussurra na escuridão do seu crânio sente algum desconforto ou qualquer breve sentimento de estranheza, como por exemplo: medo de julgamento, insegurança, sentimento de incapacidade, inadequação etc., pode ser uma evidência de que existem redes gerando conflitos com a sua intenção principal.

E essas “coisas” aparentemente inofensivas, que parecem ser apenas flashes de pensamentos, de emoções ou lembranças formam um tipo de matriz, que têm poder suficiente para gerar comportamentos, sentimentos e novos pensamentos, capazes de levar você a fazer exatamente o que não quer.

Um registro qualquer de que você não está confortável na própria pele, pode leva-lo a mudar de pele rapidamente. Sua mente não entende o meio termo, o mais ou menos. Ou é ou não é. “Conflitos” podem se tornar um arsenal bélico contra você mesmo — com um poder destrutivo enorme. É como um bug que dá tela azul no seu sistema operacional. Portanto, faça seu dever de casa: transforme a dicotomia num estado de orgulho, confiança, convicção e poder interior.

Para se tornar um trader implacável, a jornada passa inexoravelmente por várias autotransformações.

Bem, agora anote os seus sentimentos e pensamentos e analise quais são as evidências que fizeram com que você os criasse. Repense cada evidência (que não tem sustentação), à luz de uma consciência nova, e modifique uma a uma.

Defina a sua nova verdade a respeito de VIVER DE TRADING e siga-a.